domingo, 8 de abril de 2012

A TV Alvorada e a Páscoa




Na edição desse dia 30, do Jornal da TV Alvorada, apareceram duas notícias que merecem destaque pela posição que os jornalistas tomaram ao fazerem seu trabalho.
A primeira tratou de uma missa em função da proximidade da páscoa e a renovação dos votos eclesiásticos e do batismo dos católicos. O que deve ser notado é que a notícia durou cerca de cinco minutos, dos quais três deles foram usados para mostrar uma parte da missa.
Sem querer descaracterizar a importância da missa para fieis católicos, vale lembrar que para Pierre Ganz, escritor de A Reportagem em Rádio e Televisão, Jaime García, escritor de Realización de los Géneros Televisivos e Jean-Jacques que escreveu Jornalismo Televisivo, o tempo de uma reportagem de noticiários deve variar entre os dois e dois minutos e meio.
Para esses autores, esse tempo tem que ser curto para que o telespectador consiga absorver a ideia principal da notícia sem se perder na torrente de conteúdos. Reforço que não é objetivo descartar a importância da missa para os fieis católicos, mas o jornalismo tem o papel de informar e também opinar, quando for o caso.
A outra notícia tratou da programação especial de páscoa. O interessante é que o repórter disse: “convidamos todos para a programação da Igreja sobre a páscoa”. Nesse momento o jornalista mostrou que não fez a notícia como repórter, mas sim como integrante da comunidade católica.
O que as duas notícias nos mostraram é que o Sistema Alvorada e seus integrantes estão mais preocupados com a missa e a evangelização do que com o jornalismo, um serviço público, principalmente de rádio e TV que dispõe de concessões públicas para funcionar. Os repórteres se colocam no papel de parte do próprio conteúdo, afastando-os do seu papel e inserindo, em um ambiente público, suas escolhas privadas.

Helder Mourão

Referências:
GANZ, Pierre - A Reportagem em Rádio e Televisão. 1ª ed., Lisboa, Editorial Inquérito, s.d.
GARCÍA, Jaime Barroso, Realización de los Géneros Televisivos, 1ª ed., Madrid, Editorial Síntesis, 1996.
JESPERS, Jean-Jacques - Jornalismo Televisivo. 1ª ed., Coimbra, Minerva, 1998.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Apuração questionável e termos técnicos atrapalham informação




O jornal Gazeta Parintins, edição nº 25 do dia 12 de março, trouxe a notícia intitulada “Jovem assassinado na madrugada de sábado”. Na capa do jornal foram utilizadas duas imagens da vítima. A primeira foto é uma 3x4cm e a segunda mostra o corpo da vitima no IML, sendo um recurso buscando a atenção do leitor. Podemos atribui a utilização das fotos e o título da matéria “Jovem assassinado na noite de Sábado” ao chamado sensacionalismo. Este se refere às ações e narrativas que procuram provocar sensações no receptor.  
            Na matéria, são usadas como fontes a mãe da vítima, Claúdia Inês dos Santos e o Delegado Ivo Cunha. No segundo parágrafo da notícia é apresentada a citação do delegado detalhando o caso e em seguida, no terceiro parágrafo, é colocada a fala da mãe da vítima, uma citação extensa que o autor divide em dois parágrafos, usando-se a mesma fonte. Como nenhum comentário é elaborado após a citação, acredita-se que o responsável pela composição da notícia não procurou mais fontes, fazendo o uso de dois depoimentos de uma mesma entrevista. Ou não possuía mais argumentos para introduzir novas informações na notícia.
           No segundo parágrafo o autor afirma que “homicidas confessaram o crime e todos são maiores de idade”, não há necessidade de informar que os mesmos eram maiores de idade, pois não é um fato relevante neste caso. Fica suposto que há uma tendência de menores infratores na cidade, algo não documentado em nenhum local.
Na notícia são usados também termos como “tórax (região do pulmão esquerdo, explicada na matéria)” e outros termos como “necropsia” e “choque hipovolêmico”, mas que não foram oferecidos seus significados como no primeiro termo usado. No último parágrafo, o texto diz “a vítima morreu após choque térmico, uma perda grande sanguínea”, novamente o autor poderia ter utilizado os parênteses “()” para explica o significado do termo “choque hipovolêmico”, facilitando o entendimento do leitor sobre o assunto.  

        Kamila Souza

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mulher seminua vende jornal?

Visão machista prejudica acesso do público feminino ao jornal

Na edição nº 1080, do dia 20 de março de 2012, o jornal Dez Minutos trouxe, mais uma vez, uma edição recheada de mulheres super cortejadas pela grande massa masculina.
Como é de praxe, trouxe na chamada de capa a imagem de uma mulher com trajes mínimos para dar destaque a suas curvas e seios, e com a legenda: “A Bella da Semana”. Trata-se de um ensaio fotográfico que é mostrado na última página do jornal.
Além da capa, na contracapa do periódico, em que aparece o ensaio da chamada de capa, aparecem também várias fotografias de outras celebridades que estão na mira dos paparazzi para serem clicadas diariamente em seus momentos mais pitorescos possíveis. Aliás, é isso que é vendido, as suas respectivas imagens seminuas ou completamente despidas.
O debate é: além dessas mulheres venderem seus corpos como imagens pitorescas ocorre aí a reificação da imagem feminina, ou seja, se tornam meros produtos de mercado, um produto à venda e com prazo de validade de no máximo um dia.
Além disso, vale ressaltar que esta empresa parece considerar que somente homens compram e leem este jornal, o que representa ser uma visão estritamente machista, pois esta raramente traz um ensaio masculino, haja vista que nunca presenciei tal fato. Mas eis o questionamento que não quer calar: Então, por que vender somente a imagem feminina? Seria o discurso machista que ainda prevalece na sociedade?
Não se pode aferir que a proporção do público masculino que compra o jornal seja maior do que o público feminino, mas é o que o jornal está forçando parecer, devida a grande quantidade de assuntos voltados para este público.

Hanne Assimen

sexta-feira, 30 de março de 2012

Cultura primitiva para quem mesmo?



O Jornal Repórter Parintins na edição do dia 18 de março trouxe uma matéria intitulada “Embrapa quebra paradigmas”. No texto o autor ressalta o trabalho que esta instituição vem fazendo ao longo dos anos nas comunidades rurais de Parintins. No decorrer da notícia o jornalista explicita de maneira desenvolvida a importância deste trabalho, destacando as ações feitas pelos funcionários da Embrapa, juntamente com os produtores rurais.
Os leitores conseguem entender o acontecimento através da abordagem feita pelo repórter, acontece que em uma parte da matéria o autor diz que os produtores rurais ainda têm uma cultura primitiva que dificulta o desenvolvimento das comunidades. A pergunta a fazer é: quem disse que a cultura dos produtores é primitiva? Essa afirmação é do jornalista ou da única fonte consultada ao longo da reportagem? Acredito que não cabe ao jornalista julgá-los deste modo e se esta fala não foi dele, deveria ter documentado esta informação de algum modo. Ou através de uma resolução da Embrapa ou mesmo com a fala do supervisor. 
É dito ainda no texto que a empresa procura capacitar os produtores dentro da nova tecnologia? O que seriam essas novas tecnologias? Porque o jornalista não entrevistou nenhum produtor rural para mostrar para a população a opinião dos trabalhadores em relação a Embrapa, em relação a esta implementação tecnológica?
Mais uma vez temos apenas a consulta das fontes oficiais, que não é exclusividade deste jornal impresso, mas da maioria dos informativos do município.

Yasmin Gatto Cardoso

quarta-feira, 28 de março de 2012

As vozes caladas





Na edição de 10 a 16 de Março, o jornal Novo Horizonte trouxe na editoria de Cidade uma noticia intitulada “Produtores têm novo espaço para comercialização da produção”.
A notícia diz que estiveram presentes na inauguração do local as seguintes autoridades: presidente do Sindicato Rural, Wener Gama, presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Amazonas, Muni Lourenço, o secretario de Estado de Oportunidades do Tocantins, Omar Heneman, um representante do Senar, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, Rubens Pires, o deputado estadual, Tony Medeiros, e o então prefeito em exercício, Juscelino Manso, além de autoridades municipais e produtores rurais.
Adiante vem uma fala de Rubens Pires, ressaltando a importância do espaço inaugurado, sendo esta a única citação da notícia. Se refletirmos um pouco, nos perguntando quem são os maiores interessados na inauguração do espaço, quem nos vem à mente? Certamente pensamos na população de Parintins e nos produtores rurais, certo? O que vale ressaltar aqui é que as vozes que deveriam ser ouvidas foram deixadas de lado na notícia, dando mais importância às autoridades presentes do que ao trabalhador.
Para terminar, gostaria de propor uma reflexão. Quero que o leitor me diga se teve interesse em saber o que seria um secretário de Estado de Oportunidades e o que faz tal autoridade aqui, sendo ele um secretario do estado do Tocantins...

Helder Mourão

terça-feira, 27 de março de 2012

Editorial em boa medida


“O profissional de rádio tem de estar pronto para dois cenários que ainda vão conviver por algum tempo e têm em comum muito mais do que apenas o veículo por onde a mensagem circula, Em ambos, a responsabilidade ao informar é fundamental” (Milton Jung).


O Jornal Radiofônico do Sistema Alvorada de Comunicação “Jornal da Amazônia” divulgou no dia 21 de março um editorial[1], falando sobre o seu posicionamento em relação a um caso de abuso sexual que foi denunciado a delegacia de polícia em Parintins.
O editorial expressou de maneira clara o seu comprometimento com esse tipo de assunto. E seu objetivo era responder as acusações de um vereador que disse que o Jornal só havia falado nesse tema por que a acusação foi feita a um pastor. Acredito que o jornalista ao produzir o texto foi enfático, evidenciando que o programa jornalístico não estava acusando ninguém, apenas estava cumprindo o papel de divulgar para a população parintinense o suposto acontecimento, que está sendo investigado pela delegada Ana Denise.
Em nenhum momento os jornalistas fizeram acusações ou citaram nomes. Falaram apenas da denúncia e do andamento das investigações. Creio que a forma com que eles expressaram sua opinião foi correta. Pois afinal, é o editorial é a “boca” do jornal, dizendo quem ele é, é a visão subjetiva dos acontecimentos.

Yasmin Gatto Cardoso

Referências:
AMARAL, Luiz. Jornalismo: matéria de primeira página/ 6ª edição. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2008. 
JUNG, Milton. Jornalismo de rádio. 3ª Edição- São Paulo: Contexto, 2007.


[1] “O editorial, expressão moderna do “artigo de fundo”, é um ensaio curto, embebido de senso de oportunidade, um texto de opinião que reflete o ponto-de-vista do jornal. Difere do ensaio propriamente dito por não ter, em geral, valor permanente, subordinando-se sua vida à dos fatos que o determinam. Sua fonte são acontecimentos” (Luiz Amaral). 

segunda-feira, 26 de março de 2012

A fábrica de pedras da Apple


A edição de 24 a 30 de março de 2012 do Jornal Novo Horizonte trouxe uma intrigante e mal apurada notícia, intitulada “Parintinense processa Apple por receber pedra no lugar de iPhone”.
A notícia trata de um caso em que uma pessoa pediu um iPhone, produto fabricado pela empresa Apple, mas recebeu uma pedra no lugar do aparelho. Com um tom de denúncia, a notícia dá voz ao indivíduo, o qual diz processar a empresa, pois segundo ele “eu comprei da Apple e não importa se o extravio foi em transportadora, na viagem entre Parintins e Manaus, a empresa tem o dever de evitar que essas coisas aconteçam...”.
O fato é que, há uma incompatibilidade com a legislação do consumidor, pois o artigo 14 do código de defesa do consumidor diz que: “O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos”.
O que significa dizer que independente de culpa, responde quem prestou os serviços, ou seja, a transportadora e a loja que vendeu o produto, sendo que a Apple é a apenas a fabricante dos produtos, e não de pedras.
Sabemos que o jornalista tem pouco tempo para fazer as notícias, mas não é difícil falar com um advogado em uma cidade onde há uma universidade com curso de direito. Aliás, em uma cidade com duas universidades é estranho vermos professores e especialistas sendo procurados pelo jornal da mesma forma que se procura um picolé no Polo Norte.

Helder Mourão

domingo, 25 de março de 2012

Terror em Dez Minutos

Detalhe de obra do surrealista Salvador Dalí.



O termo sensacionalismo pode ser entendido como a “divulgação e exploração em tom espalhafatoso de matéria capaz de emocionar ou escandalizar; 2. uso de escândalos, atitudes chocantes, hábitos exóticos etc. com o mesmo fim”[1]. O Sensacionalismo utiliza-se de recursos gráficos (imagens, geralmente coloridas) e narrativos (linguagem coloquial exagerada) para atrair leitores. Nesta análise, o Jornal Dez Minutos será apresentado como um exemplo dessa prática.
O exagero é a característica principal na narrativa de matérias sensacionalistas. Termos de impacto são apresentados com o intuito de impressionar o leitor sobre o fato ocorrido, como no título “Idosa morre após levar marteladas”, publicado pelo informativo no dia 13. Nessa matéria, trechos como: “(...) foi encontrada agonizando” e “foi agredida com marteladas na cabeça e vários chutes na barriga” são exemplos do discurso sensacionalista presente no jornal. Percebe-se que o ‘valor-notícia’ adotado pelo veículo limita-se em descrever detalhes desnecessários ao invés de destacar informações de interesse público.
A composição das capas é outro fator que aponta o uso de recursos que instiga o fator emocional do leitor. Na edição do dia 27 de fevereiro o jornal publicou a manchete “Garota é estuprada e morta a pauladas depois de ir à festa”, acompanhada da imagem do corpo da vítima. Nesse caso, verifica-se que a estética do informativo também é trabalhada para garantir a venda do “produto”: a relação entre as chamadas (na capa), as imagens e o texto.
Nem sempre o uso de recursos que remetem ao sensacionalismo é uma boa opção na composição da linha editorial de um informativo, pois questões como a credibilidade do veículo, por exemplo, pode ser discutida. Essa prática demonstra mais a preocupação em descrever determinados acontecimentos, muitas vezes além do real, do que informar e orientar o público para debates sociais e sua atuação na sociedade em que está inserido.

Karine Nunes


[1] (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996).